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Rio de Janeiro: bBrutalidade verde-oliva
22/05/2018 11:15 em Cidades

Depoimentos trazem evidências ​​de que responsáveis pelas mortes dos amigos Bruno Coelho e Marcelo Vaz eram do Comando de Operações Especiais do Exército.

 

Marcelo Silva Vaz, de 32 anos, e Bruno Coelho da Agonia, de 26, foram amigos inseparáveis, na vida e na morte. “Bruno era um garoto maravilhoso”, conta a mãe de Marcelo, Márcia Silva, enquanto o pai de Bruno olhava com tristeza. “Eles estavam sempre juntos.” 

Os dois se conheceram em 2010, quando trabalhavam em uma fábrica de conservas no Rio de Janeiro. Bruno era solteiro e gostava de música romântica. Vivia em uma casa nos fundos da residência dos pais. Marcelo, pai de quatro filhos, era voluntário em um projeto que levava crianças carentes para jogar frescobol na praia. Tornou-se motorista de Uber após deixar a indústria de conservas.

 
 

Em 10 de novembro de 2017, Bruno subiu na traseira da moto de Marcelo em direção a um baile funk no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, próximo ao Rio de Janeiro. Nunca voltaram.

Os dois, além de mais cinco homens, foram assassinados. Uma oitava vítima morreu em decorrência de ferimentos semanas depois.

Como pesquisador da Human Rights Watch, obtive depoimentos de testemunhas que não somente revelam as terríveis cenas da madrugada de 11 de novembro, como fornecem evidências ​​de que os responsáveis pelas mortes pertenceriam ao Comando de Operações Especiais do Exército.

Integrantes do comando e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a unidade de elite da Polícia Civil do Rio de Janeiro, conduziam uma operação no Salgueiro, cujo objetivo ainda não foi esclarecido, e chegaram em três blindados minutos após os tiros.

Suas declarações são contraditórias e incompletas. Horas após o tiroteio, o coordenador da Core, Rodrigo Oliveira, que participou da operação, afirmou na delegacia de homicídios que as vítimas dispararam contra as forças de segurança. Dois dias depois, o Comando Militar do Leste negou o ataque.

Nenhum dos integrantes da Core mencionou sobreviventes em seus depoimentos, mas ao menos três homens foram feridos. Nem os policiais civis nem os soldados tentaram socorrê-los. Segundo um perito que analisou o local, alguns corpos tinham sido movidos e a polícia não preservou a cena do crime. 

A história começou em 7 de novembro, quando helicópteros transportaram integrantes das Forças Armadas para áreas de mata do Salgueiro, conforme o próprio Exército admitiu. O plano era ficar à espreita de suspeitos. A operação aparentemente fracassou pelo fato de alguém ter alertado as facções criminosas, segundo me confidenciou um integrante do sistema de Justiça do Rio de Janeiro.

Três dias depois, à noite, os moradores observaram homens descendo de helicóptero para a mata.

Os assassinos abriram fogo contra quem passava pela Estrada das Palmeiras por volta da 1 hora da manhã. Leandro (nome fictício) voltava de moto para casa, quando balas perfuraram seu corpo e ele caiu. Disse ter visto os atiradores saírem da mata.

Vestiam preto, tinham o rosto coberto, usavam luvas, tinham lanternas em seus capacetes e carregavam rifles equipados com lanternas e visão à laser. O mototaxista Luiz Otávio Rosa dos Santos afirmou a uma promotora estadual ter visto uma “luz vermelha” saindo dos fuzis utilizados pelos homens que atiraram contra ele.

Leandro, sobrevivente, me contou que os assassinos estavam visíveis na beira da estrada, próximos a um poste de luz, quando dois blindados passaram, sem parar.

Ele ficou deitado em agonia por mais de uma hora e meia, com metade do corpo dentro de uma vala na beira da estrada. “Senti uma poça de sangue debaixo de mim.” Inicialmente escutava os gritos de outro ferido, mas diminuíram, até que o homem morreu. Leandro sentia tontura e muita sede, e perdeu a consciência.

 

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Sobrevivente: uma das vítimas atendidas em um hospital da região. Um blindado dificultou o socorro (Foto: reprodução)

 

Quando “Natália”, parente de Leandro, soube do tiroteio, tentou desesperadamente socorrê-lo. Ela estava em um carro com três vizinhos, a caminho da cena do crime, mas vários homens gritaram para que parassem e colocassem as mãos para fora das janelas, apontando luzes a “laser” em seus peitos e cabeças. Segundo ela, esses homens, assim como outros nas escotilhas de um blindado, usavam roupas pretas, rostos cobertos e capacetes com lanternas. 

Uma passageira em um mototáxi forneceu descrição semelhante. Em depoimento a promotores estaduais, informou que cinco homens com armas com visão a laser e lanternas pararam a moto na Estrada das Palmeiras.

Os depoimentos de que os assassinos e o Comando de Operações Especiais do Exército usavam os mesmos uniformes e o mesmo equipamento sugerem que os atiradores podem pertencer àquela unidade militar.

Natália disse que ela e seus três vizinhos resgataram Leandro e outro homem às 2h40 da manhã. De acordo com seu relato, os policiais e soldados não somente se recusaram a prestar socorro, mas os forçaram a seguir um blindado que se deslocava devagar, e que impediu que eles os ultrapassassem. “Levamos meia hora para andar um quilômetro.” Chegaram ao hospital por volta das 4 da manhã.

Luiz Otávio disse que parentes o encontraram às 6 da manhã. Ele morreu semanas depois em decorrência dos ferimentos. Segundo a lei, deixar de prestar assistência a um ferido ou não acionar serviços de emergência é crime punível com até 18 meses de detenção.

Os homicídios ocorreram após a entrada em vigor de uma lei que retira da Justiça comum o julgamento de integrantes das Forças Armadas envolvidos na morte de civis durante operações de segurança pública. A nova legislação determina que eles só podem ser denunciados pelo Ministério Público Militar e julgados por um tribunal composto por quatro militares e um juiz civil.

A delegacia de homicídios e promotores estaduais entrevistaram integrantes da Core e testemunhas civis, mas não conseguiram levantar os nomes dos integrantes do Exército que teriam participado da operação.

Uma procuradora da Justiça Militar me disse ter ouvido integrantes das forças especiais, mas nenhuma testemunha civil. Disse que pretendia fazê-lo.

Enquanto isso, as famílias das vítimas sofrem em silêncio. “Meu mundo acabou”, afirma Márcia, mãe de Marcelo.

Essas famílias esperam por justiça.

*é pesquisador-sênior da Human Rights Watch

Carta Capital

 

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