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É possível plantar água? Grupo de agricultores capixabas acredita que sim
04/07/2018 09:52 em Meio Ambiente

Unindo técnicas para proteção, manejo e infiltração da água, eles melhoram condições de cultivo para agricultores do ES.

A Plantágua  (Associação dos Plantadores de Água) reúne agricultores, técnicos, estudantes e outras pessoas que focam no cuidado da água e na defesa da agroecologia, como explica o agricultor e presidente da associação, Newton Campos.

“A agroecologia é uma forma de permanecer na terra, não participar do êxodo rural, e produzir aqui nessas pequenas terras alimento que vai tanto alimentar a família desses agricultores como, com a sobra, fazer um comércio nas feiras nas cidades. A água é o primeiro passo, olhar sua terra como sub-bacia de pequenas microbacias, e trabalhando e colhendo e guardando essa chuva nessa propriedade sua, e ir plantando tudo junto. Então uma coisa ao mesmo tempo fácil e ao mesmo tempo seguir de acordo com pequenas etapas, uma depois da outra.”

O trabalho de Newton, que teve início no Sítio Jaqueira, no município de Alegre, no Espírito Santo, começou a recuperar a terra de propriedade familiar, que estava degradada por anos de monocultivo de café e depois pela pastagem. Com a terra seca em região montanhosa, começou com a recuperação dos brejos, onde criou taludes para cultivo de arroz, consorciado com peixes e marrecos. E mais tarde foi incorporando outras técnicas para recuperar a água no terreno.

“O plantar água é fazer essa nascente produzir mais e talvez essa nascente não secar em períodos não chuvosos. Aí vimos que plantar água não é plantar árvore, é colher chuva e guardar essa chuva pra momentos não chuvosos”.

A experiência acumulada em décadas por Newton e outros agricultores e especialistas pôde ser melhor sintetizado entre 2013 e 2015, por meio do Projeto Plantadores de Água, executado por meio de um edital em parceria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alegre (Sitrua), o Grupo de Agricultura Ecológica Kapi'xawa e o Sítio Jaqueira.

Colaboradora do grupo, Ana Claudia Meira, professora do departamento de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) conta que a metodologia adotada para difundir os conhecimentos é de experimentação participativa, tendo como principal ferramenta a realização de mutirões. Assim, conjuntamente, foram formadas oito unidades das chamadas Unidades Participativas de Experimentação em Plantio de Água, as UPEPAs, que funcionam em propriedades familiares e servem de modelo para incentivar outros agricultores a aderirem às técnicas em seus terrenos.

"A agroecologia também requer essa interação entre agricultores e seus vizinhos, porque de que adiantaria cercar nossa área, não usar agrotóxico, desintoxicar nossa terra, se o nosso vizinho mandar o veneno pra cá?”, argumenta Ana Claudia.

Nas atividades coletivas, se ensinam diferentes técnicas para plantio de água. Uma das mais evidentes é o cercamento de nascentes, além do fortalecimento de mata ciliar por meio de sistemas agroflorestais. Mas há outras estratégias, como a implantação das caixas cheias, com a preparação de taludes para armazenar água. Nas estradas são cavadas caixas secas e nas encostas são feitos terraços em curvas de nível para evitar que a água escape e permitir que seja melhor absorvida para abastecer os lençóis freáticos.

A construção de fossas sépticas para destinação adequada dos resíduos também é uma das estratégias para evitar a contaminação das águas. Mais recentemente, o grupo trabalha também com o que chama de “caça-chuvas”, estruturas provisórias feitas com lona que direcionam a água da chuva pra reservatórios em regiões onde é difícil chegar com irrigação. Ana Cláudia explica:

“São técnicas simples, fáceis de aprender, baratas; isso é um princípio da Plantágua também. A gente gosta de desenvolver técnicas simples que qualquer pessoa pode fazer e que não requer muito investimento porque a gente trabalha voltado mesmo pro pequeno agricultor, que ao mesmo tempo que tem essa facilidade, demanda um pouco de teimosia, de insistência e muito trabalho.”

O engenheiro agrônomo Leonard Campos, integrante do grupo Kapi'xawa, que trabalha há trinta anos com agroecologia na região, enxerga mudanças significativas nos locais que incorporaram as práticas.

“A primeira coisa que fica perceptível é quando você chega na propriedade e lembra como era antes do projeto plantadores de água, que na sua maioria as propriedades tinham bastante pasto, mais pastagem e café.  Então hoje em dia você já chega na propriedade, principalmente próximo à casa, e vê uma diversificação muito grande, muita fruta, muito agora tem 5 anos que começou o projeto plantadores o visual mudou bastante muita variedade de fruta que eles tem as caixas secas na estrada. O visual é a primeira coisa. Outra coisa é o depoimento dos agricultores, falando dos benefícios. Agora tem mais orgulho de receber uma visita em casa, mais organização do lar deles, o bem estar deles depois que adotaram praticas de plantio de água, se sentem melhor”.

Edição: Daniela Stefano - Brasil de Fato

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