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"Quem não enxerga a alma vai ver um homem vestido de mulher" diz cuiabana que passa por transformação
23/09/2016 11:54 em Comunidade
Transexual. Transgênero. Homossexual. Heterossexual. Mariza Enrique prefere não se rotular. Nasceu num corpo de homem, mas com alma de mulher. Ou, como prefere dizer em sua ‘linguagem nerd’, nasceu com hardware masculino e software feminino. Hoje, aceita e expõe sua condição, e conta que decidiu se abrir depois que seu filho e sua esposa mostraram que não se incomodavam com quem ela era realmente – o resto não importava. 

Mariza Enrique Camilot nasceu somente Enrique Camilot. Filha de italiano, veio de São Paulo para Cuiabá aos quatro anos de idade e contou ao Olhar Conceito que, desde pequeno, percebia que seus gostos eram diferentes do que a sociedade determinava que um garoto deveria gostar. “Desde pequeno eu percebi que se eu mostrasse isso, levava porrada, nem que fosse na alma. Gostava de coisas do universo feminino mas fui, aos poucos, me fechando, criando uma pessoa que eu pudesse mostrar”. 

Assim, Mariza escondia seus gostos, comportamentos e trejeitos, até que aos catorze anos foi pega pela mãe usando roupas femininas. “Ela me levou para terapia, mas acho que a psicóloga era muito nova e não conseguiu estabelecer uma relação comigo. Eu ia lá e ficava quieta, e depois de um tempo comecei a pegar o dinheiro que meu pai dava para pagar a terapia e ir jogar fliperama. (...) Era uma forma de me esconder do mundo exterior. No fliperama eu tinha que enfrentar os desafios da razão, e deixava a emoção de lado”. 

Depois que seus pais descobriram a ‘tática’, Mariza voltou para a terapia. “Eu fiz testes psicológicos que detectaram um desejo de ser feminino. E a psicóloga teve uma atitude que hoje eu acho muito sábia. Ela disse aos meus pais que era uma fase, que passaria logo”. 

Mas não passou. Mariza, ainda como Enrique, estudou na escola técnica, se formou em engenharia elétrica na Universidade Federal de Mato Grosso, abriu uma empresa de automação e se casou três vezes. Somente em 2015, aos trinta e seis anos e em seu terceiro casamento, decidiu que não conseguia mais viver escondendo quem realmente é. 

“Todas as minhas esposas sabiam que eu gostava de usar roupas femininas, e isso nunca foi um problema. Eu contava quando já tínhamos um nível razoável de intimidade com a pessoa”, conta. “No ano passado eu coloquei na balança os prós e contras de expor ao mundo quem eu era. De um lado, estava minha liberdade, e do outro a possibilidade de ser quem eu realmente sou”. 

A ‘caixa de pandora’ se abriu quando Mariza foi estudar a relação pai e filho e percebeu que ser quem ela realmente era não faria diferença para a relação dos dois. “Fui estudar para entender a relação entre pais e filhos, e percebi que ela é, principalmente, de protetor e protegido, e de mestre e discípulo. O gênero não importa. (...) então eu expliquei pra ele que eu tinha uma alma feminina, que gostava de coisas de mulher, e ele entendeu. Disse que nunca ia sair do lado dele, não importa o que acontecesse, e foi isso”.

A relação com a esposa


Edisandra e Mariza (Foto: Rogério Florentino Pereira / Olhar Direto)

Mariza é casada com Edisandra há seis anos. Quando se conheceram, ela ainda escondia até mesmo a vontade de usar roupas femininas. “Com cinco meses de relacionamento eu contei, depois de uma briga, pelo MSN”, lembra. 

“Ela tinha sumido por um tempo, não me atendia, não abriu a porta pra mim porque estava vestida de mulher. Aí depois, pelo MSN, eu perguntei o que tinha acontecido e ela me disse. Eu não vi nenhum problema, no início achava que era apenas um fetiche”, conta Edisandra. 

Uma das maiores preocupações de Mariza quando decidiu ‘assumir’ quem ela era foi a dúvida sobre o amor de sua esposa. “Ela não me contou de uma vez. Na verdade, veio me falar o que estava sentindo e estudando, cada vez que descobria alguma coisa me explicava”, lembra. 

Como Mariza é engenheira, e não tem afinidades com teorias da psicologia, decidiu usar a matemática para entender a si mesma. No último dia 13 de setembro, fez uma postagem no Facebook explicando – em termos ‘nerds’ – as mudanças que as pessoas estavam percebendo. 



Para a esposa, Edisandra, a relação com Mariza melhorou muito depois que ela decidiu mostrar quem realmente era. “Antes era uma pessoa estourada, estressada, vivia com problemas. Hoje é muito mais feliz. E eu também”. 

Hoje, apesar das dificuldades enfrentadas em relação a suas amigas e família, Edisandra não tem dúvidas. “Meu amor é incondicional, não depende de dinheiro, não depende de gênero”, afirma. 

Preconceito


Mariza Enrique e seu pai (Foto: Rogério Florentino Pereira / Olhar Direto)

O ‘medo’ de ser abandonada pela esposa já não existe, mas Mariza tem de encarar todos os dias o preconceito e, principalmente, os olhares das pessoas. “É complicado falar sobre preconceito porque hoje em dia ninguém olha pra outra pessoa na rua e grita ‘o viadinho’, porque sabe que vai ser preso ou processado, mas o preconceito está nas atitudes, nos olhares, nas brincadeiras”, afirma. “Só que eu já estou tão calejado que se a pessoa me ofende, eu já sei me defender”. 

Na família, Mariza só teve problema de ser aceita pela mãe e pelo sogro. “Minha mãe me aceita, mas não me vê. Se você não tem capacidade de ver a alma de uma pessoa, você sempre vai enxergar um homem vestido de mulher”, lamenta. 

Realizada, Mariza não tem mais medo de assumir quem realmente é. Em sua empresa de automação, lidera uma equipe formada em sua maioria por homens, e aprendeu a impor respeito. Faz acompanhamento psicológico, assim como seu filho e hoje sabe que, apesar de o preço de sua liberdade ser alto, é muito mais caro ficar sem ela. 
Fonte: Olhar direto
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