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Estado de Transformação ou de Embromação?
10/06/2016 09:00 em Politíca

O governador Pedro Taques se elegeu em duas eleições convencendo os eleitores (inclusive a mim) de que faria atuação política de qualidade, apresentando propostas de ações que mudariam a vida do povo. No Senado, fez muito barulho e pouca ação. No governo estadual, a história se repete, mas dessa vez com requintes de crueldades contra os servidores públicos.

Taques aprendeu bem rápido as técnicas e os segredos dos políticos tradicionais, mas sempre afirmou que seu maior patrimônio se resumia à coerência, que era legalista e um gestor competente.

No entanto, creio que hoje de coerente ele não tem mais nada, e esta foi a primeira “transformação” visível que o Pedro sofreu. Eleito senador pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista) na base de sustentação da presidenta Dilma, Taques fez oposição desde o primeiro momento do mandato, com o argumento de combater a corrupção.

Mas se filia no PSDB, o Partido da Social Democracia Brasileira, agremiação que abriga José Serra, Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves. Este último é personagem frequente nos interrogatórios da Operação Lava Jato e é acusado de “proximidade” com o dinheiro sujo da corrupção.

Já Fernando Henrique seria partícipe da “maior roubalheira da história”, conforme descreve o jornalista Palmério Dória no livro “O Príncipe da Privataria” (Geração Editorial, 2013). No livro-denúncia são apresentados os bastidores da privatização do sistema de telefonia estatal, e entendemos a razão de sermos reféns das operadoras de telefonia. E de “canja” uma testemunha narra como foi a compra da emenda da reeleição (EC 16/97), outro delito que pode ser “revelado” por uma delação premiada na Operação Lava Jato.

O senador José Serra é conhecido como o arquiteto da Privataria Tucana, operação descrita às minúcias no livro do jornalista investigativo Amaury Ribeiro Junior (Geração editorial, 2011). Conforme conclui a pesquisa para a produção da obra, trata-se de levantamento dos “documentos secretos e a verdade sobre o maior assalto ao patrimônio público brasileiro. A fantástica viagem das fortunas tucanas até o paraíso fiscal das ilhas virgens Britânicas”.

Na página 191 do livro é mostrado cópia do que pode ser um contrato social de empresa em nome de Veronica Serra (filha de José Serra) e terceiros, entre eles a irmã do banqueiro Daniel Dantas, e o empreendimento foi aberto em Miami, e depois vinculado a um paraíso fiscal.

Ser oposição ao governo federal por causa dos casos de corrupção é uma bandeira eticamente aceita, mas se aliar a esse tipo de gente não guarda a menor coerência com o discurso antes demonstrado aos eleitores.

Ora, Pedro Taques fez fama por processar e permitir a prisão do bicheiro Arcanjo. Excluindo os crimes contra a vida, as demais imputações ao “Comendador” são “café pequeno” perto do que os tucanos fizeram com o patrimônio nacional e os livros citados são provas documentais das infrações. (Nunca é demais lembrar de que a corrupção também mata).

Qualquer procurador do MPF poderia prendê-los com base no que foi denunciado nas investigações dos jornalistas, e assim se parece incoerente que um (ex) agente do sistema de justiça se aproxime dos tucanos para “convescote” e não com um par de algemas para dar fim a uma organização que atentou contra o patrimônio nacional.

Assim deve-se reconhecer que Pedro Taques não é mais coerente.

Sobre o discurso de que seria legalista. Sabe-se que as leis de orçamento dos exercícios de 2015 e 2016 já foram produzidos pela equipe do governador, grupo escolhido a dedo por ele, como se fosse um jogo de futebol tipo “solteiros e casados”. No início do mandato foi chamando um grupo de amigos, ligados ao setor empresarial, agronegócio, blogueiros e a eles distribuiu as camisas, digo, os cargos no campo da administração.

Só que os legalistas “esqueceram” de prever no orçamento os recursos para quitar o RGA (reajuste geral anual) que, além de ser um calote, vai retirar de circulação cerca de R$ 600 milhões que seriam despejados na economia estadual. Ora, servidores públicos não são rentistas, são consumidores, seus vencimentos alimentam os negócios e circulam nos supermercados, açougues, farmácias, postos de gasolina e lojinhas de roupas, etc.

Negando a lei do RGA a sociedade como um todo começa a penar. Logo, não é mais legalista. Por fim, a competência. Tenho cá minhas dúvidas. Os cofres estaduais recebem cada dia mais impostos, a arrecadação é recorde, todavia o governo que já fez dois orçamentos e, portanto, sabe o comportamento da receita, não consegue dar uma resposta às demandas sociais.

Nos hospitais faltam remédios, leitos nas UTIs, as OSS continuam operando a todo vapor. Ainda que viaje ao exterior pregando inovação tecnológica, aqui entre os tapuias Pedro Taques quer extinguir a Fapemat (fundação de pesquisa). Os incentivos fiscais dão um rombo de R$ 800 milhões aos cofres públicos, o suficiente para pagar o RGA. Em janeiro de 2015, o Estado estava no limite de LRF, mas o governo fez cerca de 5 mil nomeações de servidores (a maioria comissionados, indicados por políticos), e isso provocou o desequilíbrio.

Usando palavra da moda, foi “pedalada”! O estouro da LRF não é culpa do servidor público, foram atos do governo, ou seja: pedaladas! E aí OAB, vai ficar calada? E os coxinhas, não vão pras ruas? As madames não vão bater suas panelas?

Logo, não é competente. Dessa forma, cai por terra a falácia da coerência, do legalista e da competência. Lamentavelmente, a marca pela qual o político Pedro Taques será lembrado para sempre é a de ter contribuído com o atentado à democracia ao se aliar com a extrema direita reacionária, corrupta e golpista.

O que fará o governador neste “restinho” de mandato? Usará os recursos financeiros para melhorar a vidas das pessoas ou gastará R$ 70 milhões de reais em propagandas para “convencer” a todos nós que transformou a vida do povo de Mato Grosso?

Antonio Cavalcante Filho, cidadão, escreve às sextas-feiras no blog Rdnews.

E-mail: antoniocavalcantefilho@outlook.com

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