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A cruzada missionária contra a Funai
17/12/2018 12:12 em Direitos Humanos

O fascismo avança a passos largos contra aqueles coletivos mais vulnerabilizados da população brasileira. Com as nomeações feitas por Bolsonaro para os ministérios, confirma-se o temor do terror crescente: a implantação de um governo do ódio ideológico e da intolerância; um governo que terá como objetivo conjugar o genocídio ao saque.

No campo, a resposta da maquina fascista tem sido ataques e assassinatos. Tal como o recente assassinato por pistoleiros encapuzados que invadiram o Acampamento Dom José Maria Pires, para matar os sem-terrras Rodrigo Celestino e José Bernardo da Silvados, integrantes do MST na Paraíba. Mas também ataques constantes que tem sido reportados no Mato Grosso do sul, Bahia, Pará, a indígenas, agressões racistas contra praticantes de religiões de matrizes africanas, e perseguição à liberdade sexual e a “ideologia de gênero”.

É a ascensão de um velho colonialismo ao poder central, e que vai conjugar a sanha de colonizadores com o fundamentalismo religioso. Assemelha-se à velha relação da Igreja com a Coroa portuguesa desembarcando no Brasil para fazer daqui terra arrasada…

Entre tantos desastres humanitários e ecológicos que se anunciam, algumas nomeações causaram perplexidade de tão expostas as contradições e a violência que querem colocar em prática. Trazem para o centro do poder o fundamentalismo religioso de católicos e protestantes, aliados à elite colonial.

Na educação, um católico fundamentalista nostálgico da Inquisição que quer combater “a ideologia de gênero”; no ministério dos direitos humanos e mulheres, onde tentam jogar a Funai, uma pastora fundamentalista que quer garantir a pregação nas aldeias e negociar as almas indígenas, expor povos isolados ao genocídio e dilapidar e alienar os territórios e os recursos; no meio ambiente, um fazendeiro que incentiva a milícia rural, a pistolagem e investigado por fraude ambiental.

Esse movimento reacionário reflete os dois eixos do fascismo na América Latina, descritos pela antropóloga Rita Segato: do fundamentalismo cristão e da esfera pára-estatal de controle da vida (as milícias e a pistolagem). Já não se separa mais as religiões cristãs pela Reforma, mas sim pelo caráter: ou fundamentalista ou da libertação. E com Bolsonaro, é o fundamentalismo que ressurge das cinzas das fogueiras da Inquisição. Fundamentalismo: é preciso repetir incansavelmente para descrever esse pensamento reacionário e violento.

Damares Alves, pastora fundamentalista que fundou uma missão evangélica acusada de sequestrar crianças indígenas e fomentar o racismo contra os povos indígenas, é quem vai mandar na Funai, uma vez que a agência indigenista, como quer o presidente eleito, seja transferida do Ministério da Justiça para o Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos. Essa mudança não é simplesmente um jogo de alianças, mas um giro retrógrado profundo no caminho que a história do Brasil estava sendo construída com os povos indígenas. Um retrocesso civilizacional, que era inimaginável até poucos anos atrás, em direção ao abismo do genocídio.

A pastora Damares quer implantar no Estado brasileiro o “genocídio cordial”. Matar fisicamente e matar a cultura, mas matando com “cuidado”. A ONG missionária Atini fundada por ela tinha por objetivo uma cruzada para raptar crianças indígenas, supostamente “salvando-as do infanticídio”, e prender e intimidar adversários ou pessoas que sejam críticas à atuação missionária.

A Atini foi processada pelo MPF por promover uma campanha racista para que os brasileiros e brasileiras pensassem que indígenas são matadores de criancinhas através de um filme feito por uma equipe hollywoodiana dirigida pelo filho do dono da ong missionária Jocum (Jovens com Uma Missão) nos Estado s Unidos — e, internacionalmente, a organização Survival conseguiu a condenação de um canal australiano que fez uma matéria seguindo esse mesmo tom racista contra os Suruwahá.

 

 
 

A Atini queria estigmatizar os indígenas como bárbaros, selvagens, “pecadores”, fazendo alusão que caso fossem evangelizados e seguissem a sua mesma religião, estariam a salvo. O mesmo tom proferido por integrantes do governo Bolsonaro.

 

Mas todo mundo sabe: Não existe criança mais feliz do que criança em aldeia. E a máscara cai com o fato de a população indígena ser a que mais cresce no Brasil. Ou seja, as crianças mais felizes são aquelas que vivem nos territórios demarcados.

A ideia do infanticídio indígena hoje é um mito colonial, que serve exatamente tal e qual as acusações de canibalismo no Brasil colônia que justificariam as guerras justas e a escravidão. Há mais de 20 anos que não há nenhum caso de infanticídio documentado entre povos indígenas — ao contrário da sociedade brasileira, que massacra diariamente jovens negros nas periferias.

Através de um projeto de lei supostamente para combater o “infanticídio indígena” (a “Lei Muwaji”), essas agências missionárias — fundamentalistas, é preciso repetir —, organizadas sob o guarda chuva da Associação das Missões Transculturais do Brasil (AMTB), e que envolve a Jovens com Uma Missão (Jocum), a Missão Novas Tribos do Brasil (New Tribes Mission, no original), e uma dezena de outras siglas (MEVA, etc), e é liderada pela Atini, que integrou na fundação a pastora Damares, queriam ir além da prescrição do Código Penal que já criminaliza o infanticídio, para duplamente reprimir os indígenas.

De uma forma racista, o crime cometido por um “índio” teria outra punição a mais do que já ocorre com o caso de não-indígenas pela lei brasileira. Isso envolveria o sequestro da criança (que seria traficada e presa em uma missão), e a punição de toda a rede de relações dessa pessoa indígena, além da intervenção do estado colonial do Brasil sobre um povo.

A Atini surgiu depois que a missionária Márcia Suzuki e outras missionárias e missionários da missão americana Jocum (Youth With a Mission, no original, ou novamente: Jovens Com Uma Missão, no Brasil), foi expulsa do povo Suruwahá, no Amazonas, entre 2008 e 2009, acusada de uma série de violações dos direitos dos povos indígenas: praticar o proselitismo, evangelizar indígenas, desestruturar a comunidade Suruwahá — que levou a suicídios em massa—, escravização de indígenas, extração ilegal de sangue, biopirataria de sementes da floresta, construção de pista de pouso ilegal, venda ilegal de madeira, remoção de indígenas de forma ilegal e sequestro de crianças, racismo. Estas acusações constam em um relatório interno da Funai, “Missão, o veneno lento e letal” (leia aqui reportagem à respeito feita à época).

Não é apenas a pastora Damares Alves que assombra a volta da Inquisição e do aldeamento dos povos indígenas, mas sim o projeto que ela encampa, e que está representado por uma série de lobistas e assessores girando em torno do governo Bolsonaro.

Merece destaque um desses assessores/lobistas, também de berço e visão missionária, que cresceu junto da atuação da New Tribes Mission nos Zoé, quando viu seu pai ser expulso pela Funai e acusado de proselitismo e de provocar uma epidemia mortal que dizimou 30% do povo. Um assessor que porta o título de antropólogo (mestre em antropologia pela UNB, e ex-filiado à ABA), que assessora a “política indigenista da direita”, através de um blog na internet — algo como um Olavo de Carvalho do indigenismo. Aterrorizando recentemente os Munduruku que vivem no planalto de Santarém, invadindo reuniões dos indígenas sempre com pistoleiros armados, assim como fez na reunião da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Santarém, a prática é sempre dizer que a salvação dos indígenas é arrendar terras, estabelecer “parcerias agrícolas”, negociar madeira, e, claro, seguir o Evangelho.

Atrás das almas indígenas, o espírito fundamentalista se alia a fazendeiros, mineradoras, garimpeiros, madeireiros, sojeiros… Essa aliança de forças e de interesses, na verdade, é muito mais profunda: trata-se do compartilhamento de uma visão racista sobre os povos indígenas, que são deshumanizados, tratados como animais inferiorizados, bestializados, seres colonizados que devem ser submetidos à catequese e ao saque de seu corpo/território. O índio, nessa visão, não é, ele “quer ser”, como o branco. É uma releitura grotesca do projeto de “emancipação” que a ditadura civil-militar tentou por em prática no final dos anos 1970 — a emancipação da terra indígena para o mercado pela espoliação dos corpos indígenas.

 

 

O fascismo avança a passos largos contra aqueles coletivos mais vulnerabilizados da população brasileira. Com as nomeações feitas por Bolsonaro para os ministérios, confirma-se o temor do terror crescente: a implantação de um governo do ódio ideológico e da intolerância; um governo que terá como objetivo conjugar o genocídio ao saque.

No campo, a resposta da maquina fascista tem sido ataques e assassinatos. Tal como o recente assassinato por pistoleiros encapuzados que invadiram o Acampamento Dom José Maria Pires, para matar os sem-terrras Rodrigo Celestino e José Bernardo da Silvados, integrantes do MST na Paraíba. Mas também ataques constantes que tem sido reportados no Mato Grosso do sul, Bahia, Pará, a indígenas, agressões racistas contra praticantes de religiões de matrizes africanas, e perseguição à liberdade sexual e a “ideologia de gênero”.

É a ascensão de um velho colonialismo ao poder central, e que vai conjugar a sanha de colonizadores com o fundamentalismo religioso. Assemelha-se à velha relação da Igreja com a Coroa portuguesa desembarcando no Brasil para fazer daqui terra arrasada…

Entre tantos desastres humanitários e ecológicos que se anunciam, algumas nomeações causaram perplexidade de tão expostas as contradições e a violência que querem colocar em prática. Trazem para o centro do poder o fundamentalismo religioso de católicos e protestantes, aliados à elite colonial.

Na educação, um católico fundamentalista nostálgico da Inquisição que quer combater “a ideologia de gênero”; no ministério dos direitos humanos e mulheres, onde tentam jogar a Funai, uma pastora fundamentalista que quer garantir a pregação nas aldeias e negociar as almas indígenas, expor povos isolados ao genocídio e dilapidar e alienar os territórios e os recursos; no meio ambiente, um fazendeiro que incentiva a milícia rural, a pistolagem e investigado por fraude ambiental.

Esse movimento reacionário reflete os dois eixos do fascismo na América Latina, descritos pela antropóloga Rita Segato: do fundamentalismo cristão e da esfera pára-estatal de controle da vida (as milícias e a pistolagem). Já não se separa mais as religiões cristãs pela Reforma, mas sim pelo caráter: ou fundamentalista ou da libertação. E com Bolsonaro, é o fundamentalismo que ressurge das cinzas das fogueiras da Inquisição. Fundamentalismo: é preciso repetir incansavelmente para descrever esse pensamento reacionário e violento.

Damares Alves, pastora fundamentalista que fundou uma missão evangélica acusada de sequestrar crianças indígenas e fomentar o racismo contra os povos indígenas, é quem vai mandar na Funai, uma vez que a agência indigenista, como quer o presidente eleito, seja transferida do Ministério da Justiça para o Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos. Essa mudança não é simplesmente um jogo de alianças, mas um giro retrógrado profundo no caminho que a história do Brasil estava sendo construída com os povos indígenas. Um retrocesso civilizacional, que era inimaginável até poucos anos atrás, em direção ao abismo do genocídio.

A pastora Damares quer implantar no Estado brasileiro o “genocídio cordial”. Matar fisicamente e matar a cultura, mas matando com “cuidado”. A ONG missionária Atini fundada por ela tinha por objetivo uma cruzada para raptar crianças indígenas, supostamente “salvando-as do infanticídio”, e prender e intimidar adversários ou pessoas que sejam críticas à atuação missionária.

A Atini foi processada pelo MPF por promover uma campanha racista para que os brasileiros e brasileiras pensassem que indígenas são matadores de criancinhas através de um filme feito por uma equipe hollywoodiana dirigida pelo filho do dono da ong missionária Jocum (Jovens com Uma Missão) nos Estado s Unidos — e, internacionalmente, a organização Survival conseguiu a condenação de um canal australiano que fez uma matéria seguindo esse mesmo tom racista contra os Suruwahá.

 

 
 

A Atini queria estigmatizar os indígenas como bárbaros, selvagens, “pecadores”, fazendo alusão que caso fossem evangelizados e seguissem a sua mesma religião, estariam a salvo. O mesmo tom proferido por integrantes do governo Bolsonaro.

 

Mas todo mundo sabe: Não existe criança mais feliz do que criança em aldeia. E a máscara cai com o fato de a população indígena ser a que mais cresce no Brasil. Ou seja, as crianças mais felizes são aquelas que vivem nos territórios demarcados.

A ideia do infanticídio indígena hoje é um mito colonial, que serve exatamente tal e qual as acusações de canibalismo no Brasil colônia que justificariam as guerras justas e a escravidão. Há mais de 20 anos que não há nenhum caso de infanticídio documentado entre povos indígenas — ao contrário da sociedade brasileira, que massacra diariamente jovens negros nas periferias.

Através de um projeto de lei supostamente para combater o “infanticídio indígena” (a “Lei Muwaji”), essas agências missionárias — fundamentalistas, é preciso repetir —, organizadas sob o guarda chuva da Associação das Missões Transculturais do Brasil (AMTB), e que envolve a Jovens com Uma Missão (Jocum), a Missão Novas Tribos do Brasil (New Tribes Mission, no original), e uma dezena de outras siglas (MEVA, etc), e é liderada pela Atini, que integrou na fundação a pastora Damares, queriam ir além da prescrição do Código Penal que já criminaliza o infanticídio, para duplamente reprimir os indígenas.

De uma forma racista, o crime cometido por um “índio” teria outra punição a mais do que já ocorre com o caso de não-indígenas pela lei brasileira. Isso envolveria o sequestro da criança (que seria traficada e presa em uma missão), e a punição de toda a rede de relações dessa pessoa indígena, além da intervenção do estado colonial do Brasil sobre um povo.

A Atini surgiu depois que a missionária Márcia Suzuki e outras missionárias e missionários da missão americana Jocum (Youth With a Mission, no original, ou novamente: Jovens Com Uma Missão, no Brasil), foi expulsa do povo Suruwahá, no Amazonas, entre 2008 e 2009, acusada de uma série de violações dos direitos dos povos indígenas: praticar o proselitismo, evangelizar indígenas, desestruturar a comunidade Suruwahá — que levou a suicídios em massa—, escravização de indígenas, extração ilegal de sangue, biopirataria de sementes da floresta, construção de pista de pouso ilegal, venda ilegal de madeira, remoção de indígenas de forma ilegal e sequestro de crianças, racismo. Estas acusações constam em um relatório interno da Funai, “Missão, o veneno lento e letal” (leia aqui reportagem à respeito feita à época).

Não é apenas a pastora Damares Alves que assombra a volta da Inquisição e do aldeamento dos povos indígenas, mas sim o projeto que ela encampa, e que está representado por uma série de lobistas e assessores girando em torno do governo Bolsonaro.

Merece destaque um desses assessores/lobistas, também de berço e visão missionária, que cresceu junto da atuação da New Tribes Mission nos Zoé, quando viu seu pai ser expulso pela Funai e acusado de proselitismo e de provocar uma epidemia mortal que dizimou 30% do povo. Um assessor que porta o título de antropólogo (mestre em antropologia pela UNB, e ex-filiado à ABA), que assessora a “política indigenista da direita”, através de um blog na internet — algo como um Olavo de Carvalho do indigenismo. Aterrorizando recentemente os Munduruku que vivem no planalto de Santarém, invadindo reuniões dos indígenas sempre com pistoleiros armados, assim como fez na reunião da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, em Santarém, a prática é sempre dizer que a salvação dos indígenas é arrendar terras, estabelecer “parcerias agrícolas”, negociar madeira, e, claro, seguir o Evangelho.

Atrás das almas indígenas, o espírito fundamentalista se alia a fazendeiros, mineradoras, garimpeiros, madeireiros, sojeiros… Essa aliança de forças e de interesses, na verdade, é muito mais profunda: trata-se do compartilhamento de uma visão racista sobre os povos indígenas, que são deshumanizados, tratados como animais inferiorizados, bestializados, seres colonizados que devem ser submetidos à catequese e ao saque de seu corpo/território. O índio, nessa visão, não é, ele “quer ser”, como o branco. É uma releitura grotesca do projeto de “emancipação” que a ditadura civil-militar tentou por em prática no final dos anos 1970 — a emancipação da terra indígena para o mercado pela espoliação dos corpos indígenas.

 

Para tentar legitimar a atuação salvacionista, tanto missionária quanto capitalista, é que surge a acusação racista contra as culturas indígenas, tais como “a prática do infanticídio” — e todos os problemas das sociedades indígenas poderiam ser resolvidos a partir da implantação integral do Evangelho na organização da vida indígena associado com o capitalismo do agronegócio. É um projeto político religioso muito próximo da doutrina do Estado Islâmico, a DAESH, o Taleban… mas implementado na versão do Engenho e da Casa Grande do Brasil, e contra uma população exposta a vulnerabilização extrema e sobrevivente de massacres. É uma tragédia humanitária, perturbadora, que estamos prestes a assistir. De uma covardia extremamente cruel.

 

Para tentar legitimar a atuação salvacionista, tanto missionária quanto capitalista, é que surge a acusação racista contra as culturas indígenas, tais como “a prática do infanticídio” — e todos os problemas das sociedades indígenas poderiam ser resolvidos a partir da implantação integral do Evangelho na organização da vida indígena associado com o capitalismo do agronegócio. É um projeto político religioso muito próximo da doutrina do Estado Islâmico, a DAESH, o Taleban… mas implementado na versão do Engenho e da Casa Grande do Brasil, e contra uma população exposta a vulnerabilização extrema e sobrevivente de massacres. É uma tragédia humanitária, perturbadora, que estamos prestes a assistir. De uma covardia extremamente cruel.

Carta Capital

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