Márcia Tiburi e Jean Willys falam sobre exílio do "Brasil de Bolsonaro"
29/03/2021 10:37 em Direitos Humanos

Cresce o número de figuras públicas que saíram do país após ataques e intimidações da direita.

A pesquisadora Larissa Miles Bombardi, do Departamento de Geografia da USP, se somou recentemente à lista de figuras públicas que foram obrigadas a sair do país para salvar sua própria vida após ser vítima de intimidações em um Brasil que se autoproclama democrático. Ao menos no papel.

O ex-deputado federal Jean Wyllys, a filósofa Márcia Tiburi, a antropóloga Débora Diniz e o escritor e ativista Anderson França, entre outros, são vítimas da mesma intolerância e política do ódio que, neste momento, obrigam a geógrafa ao exílio. 

Bombardi é autora do atlas Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, uma publicação que ganhou o mundo por expor as consequências do uso desenfreado de venenos em solo brasileiro. Um tema caro ao governo Bolsonaro e ao setor do agronegócio.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Jean Wyllys e Márcia Tiburi analisam as engrenagens por trás de um violento processo que aumenta a relação de exilados e escancara as fissuras da democracia brasileira. 

“Eu senti o peso dessa gente nefasta muito antes de ela se materializar num governo genocida que só encontra paralelo no nazismo”, afirma o ex-deputado federal pelo PSOL, que hoje vive na Espanha.

Desde 2011, quando assumiu o primeiro mandato, o então parlamentar já enfrentava ameaças de morte por parte de grupos de extrema direita organizados nas redes digitais e fora delas. Grupos que, segundo Wyllys, “articulam fanáticos cristãos neopentecostais, supremacistas brancos e milicianos”.

Ele conta que tentou garantir, de todos os modos, uma segurança mínima para permanecer no Brasil, mas não teve suporte dos órgãos responsáveis. 

“A Polícia Federal não moveu uma palha para desvendar quem estava por trás e financiava o terrorismo do qual eu era e sigo sendo vítima. Fiz 17 denúncias que resultaram em nada”, detalha.

Foi somente após denunciar as ameaças na Comissão Internacional de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e apresentar provas que o risco à vida de Jean foi reconhecido. O Estado brasileiro, por sua vez, negou o perigo. 

“O que aconteceria se continuasse aí era a minha morte, de um jeito ou de outro. Muitos dos criminosos se elegeram para o parlamento. Alguns deles tentam hoje se dissociar do genocida e de sua estrutura mafiosa de intimidação e violência”, diz, referindo-se a Bolsonaro.

“A criminosa e pesada campanha de destruição da minha imagem pública com fake news e mentiras e a execução covarde e brutal de Marielle Franco deram-me a exata medida do perigo real que eu corria e o vislumbre do que o Brasil se transformaria quando o genocida tomasse posse”.
 
Foi então que Wyllys abriu mão do mandato e deixou o país em janeiro de 2019, no primeiro mês do governo Bolsonaro. Viveu na Alemanha, nos Estados Unidos e hoje dedica-se à carreira acadêmica em Barcelona, onde faz doutorado sobre fake news e discursos de ódio. 

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O que aconteceria se continuasse aí era a minha morte, de um jeito ou de outro

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Com a escala de intolerância e polarização insuflada pela figura do presidente, o ex-deputado não recebeu o anúncio de Larissa Bombardi com surpresa.

“Não me espanta que uma cientista que estuda os efeitos nocivos dos agrotóxicos esteja sob a mira dessa estrutura mafiosa e miliciana que não gosta que venha a público nada que contrarie seus negócios e sua visão torta de mundo”, critica.

Márcia Tiburi: “A misoginia se transformou em ameaça de morte”

Os mecanismos de perseguição contra Jean Wyllys são exatamente os mesmos que fizeram com que Márcia Tiburi anunciasse sua saída do país, em março de 2019. 

Desde o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, os ataques de porta-vozes da extrema direita cresceram, mas não na intensidade em que ocorreram durante o que a filósofa define como “processo da fascistização do Brasil”. 

De ameaça de mortes nas redes sociais a pessoas armadas no lançamento de livros, a escritora tornou-se um dos principais alvos do Movimento Brasil Livre (MBL). A situação ficou ainda pior quando Tiburi se negou a continuar participando de uma entrevista em uma rádio após Kim Kataguiri, uma das lideranças do MBL, chegar de surpresa no estúdio para integrar a conversa.

“Aquilo que era uma misoginia estrutural, naturalizada em uma sociedade machista, se transformou em um tipo de ameaça muito mais organizada e consistente. Se criou uma espécie de ecossistema do ódio. A misoginia se transformou em ameaça de morte”, conta Tiburi.

O machismo e a misoginia também são fundantes da série de linchamentos virtuais e ameaças contra Débora Diniz, professora da UnB e referência nas discussões de gênero.

A antropóloga foi amplamente hostilizada após participar de debate pelo direito ao aborto até a 12ª semana de gestação no Supremo Tribunal Federal (STF) em agosto de 2018. Ameaçada de morte, Diniz e família deixaram o país aconselhados pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do governo federal.

O mesmo se repetia com Tiburi, que se candidatou ao governo do Rio de Janeiro pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2018, o que a deixou ainda mais exposta às ofensivas.

Ela lembra que foi obrigada a se deslocar pela cidade com um carro blindado já que a campanha aconteceu somente alguns meses após a execução de Marielle e Anderson, caso que explicitou a violência política contra defensores dos direitos humanos.

Tiburi lembra que a ideia de que não poderia mais permanecer em seu país de origem se concretizou após ameaças a um evento do qual participou na Festa Literária Internacional de Maringá (Flim). Sua presença foi questionada por parlamentares e pelo MBL, que organizou um protesto no mesmo local. 

A possibilidade de um violento episódio acontecer dividiu a população da cidade e a organização do evento contratou uma segurança armada para acompanhar a conversa. 

“Naquele dia, quando me vi nessa situação e pensei que alguém poderia morrer no meu lugar, que não era só eu ameaçada de morte, mas todo público que me apoiava, que gosta de mim, que lê minhas coisas, me dei conta que, para defendê-los, deveria me retirar do país. Quando Bolsonaro venceu fui embora para os Estados Unidos. Não pisei no Brasil governado por esse projeto fascista”, afirma. 

Organizações internacionais que protegem escritores ameaçados pediram a Tiburi que organizasse um dossiê registrando todas as ameaças que sofria. Foi só então que teve noção da real dimensão e capilaridade dos ataques, que vinham de diferentes grupos e em profusão.

Depois de um período nos Estados Unidos, mudou-se para França, também acolhida por uma instituição acadêmica.

“Nunca mais fui pro Brasil, nunca mais vi minha família. Meu marido pôde ficar um tempo de licença na França, mas faz mais de um ano que não está aqui”, explica.

“Eu sigo aqui como uma pessoa exilada, nesse momento, protegida pela universidade francesa. O Brasil entrou no mapa de países onde ocorrem essas perseguições. Sou formalmente protegida por essa universidade. É uma história muito triste. Preferia que fosse tudo diferente, mas essa é a realidade”.

“Caça às bruxas”

A filósofa frisou durante a conversa com a reportagem que, apesar de casos como o de Jean Wyllys e da antropóloga Débora Diniz ganharem destaque por envolverem personalidades públicas, a intimidação política também é recorrente nos corredores das universidades públicas.

De acordo com ela, muitos docentes pedem exoneração ou solicitam licenças não remuneradas por serem perseguidos em processos administrativos “absurdamente canalhas”. 

“Não é necessário dizer que é uma ditadura ou deixar explícito para entendermos que de fato estamos vivendo uma ditadura. O processo é de estrangulamento. De repente, você é ejetado. Para sobreviver, proteger sua família e, muitas vezes, sua própria universidade, você se vê obrigado a sair”, pontua Tiburi.

“Se trata de tentar sobreviver dentro de um contexto em que se está condenado ao silêncio, ao fracasso ou à morte. Ou às três coisas ao mesmo tempo”.

Ela vê a perseguição ao trabalho de Larissa Bombardi como “parte do projeto de matança dos brasileiros” e que abriu as portas do país para o “envenenamento mundial”. Tiburi não poupa palavras ao dizer que vivemos sob um governo fascista que trava guerra contra a segurança alimentar, aos sem-terra e a agroecologia.

“Estamos vivendo uma ditadura, com as marcas da condição militar, mas sobretudo uma ditadura miliciana. O apodrecimento, a corrupção, da própria ideia de militarização. O milicianato chegou ao poder e infelizmente dita as regras da nação atualmente. Descaso, abandono, maldade e extermínio. O nosso fascismo é miliciano”, ressalta. 

Futuro ameaçado

Exílio, perseguição, governo militarizado e violência deliberada. Como se não bastasse as semelhanças com os anos de chumbo, o governo Bolsonaro tem utilizado a Lei de Segurança Nacional para enquadrar críticos a sua gestão, a exemplo do youtuber Felipe Neto e do militante Rodrigo Pilha.

Parafraseando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, Tiburi classifica o uso da lei como um “fóssil jurídico” que estabelece nexo entre os dois períodos – a ditadura militar e a “democracia” de Bolsonaro. 

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Se trata de tentar sobreviver dentro de um contexto em que se está condenado ao silêncio, ao fracasso ou à morte. Ou às três coisas ao mesmo tempo"

 

“O que o Brasil está vivendo hoje é muito parecido com o que a Alemanha viveu no período nazista. E não podemos dizer que não avisamos. Eu avisei”, endossa a filósofa, que não tem perspectiva de retornar ao país apesar de todas as implicações de seu exílio.

“Eu não voltarei para o Brasil governado por Bolsonaro, mas voltarei para o Brasil governado pela democracia. Espero que haja eleições em 2022”. 

Entenda o novo caso

As tentativas de desqualificação do trabalho de Larissa Bombardi acontecem desde 2019, quando seu livro foi lançado na Europa. Os ataques se intensificaram após uma rede de supermercados orgânicos na Escandinávia boicotar produtos brasileiros em resposta ao conteúdo do Atlas.

Por meio de uma carta-aberta de sete páginas, Bombardi notificou seus colegas, na semana passada, sobre a decisão de sair do país e deu detalhes dos ataques que vem sofrendo em retaliação a seus estudos envolvendo os agrotóxicos. 

As intimidações se elevaram ainda mais em 2020 após a publicação de artigos relacionando a suinocultura e a covid-19 ao lado de outros dois pesquisadores. Eles se debruçaram sobre a hipótese de que a criação intensiva de animais possa ser um dos veículos de propagação do vírus. 

Segundo escreveu a geógrafa, a Associação Brasileira dos Produtores de Proteína Animal chegou a enviar um e-mail para ela, com cópia para a coordenação do departamento de Geografia e para a reitoria da USP, afirmando que a pesquisadora “não poderia tecer tais hipóteses” utilizando-se de um “absoluto tom de intimidação”. 

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) também emitiu uma nota “técnica” sobre o artigo, alvo de repetidas críticas públicas por parte do agrônomo Xico Graziano, ex-deputado federal pelo PSDB. 

“Recebi indicação de lideranças de movimentos sociais para que eu evitasse os mesmos caminhos, alterasse os meus horários e a minha rotina, de forma a me proteger de possíveis ataques dos setores econômicos envolvidos com a temática sobre a qual eu me debruço”, desabafou a pesquisadora, que chegou a suspender participação em eventos por temor.

“Eu me perguntava: como uma mulher, mãe de dois filhos, única responsável pelas crianças e pela rotina delas poderia mudar algo?”.

Além das ameaças, Bombardi foi vítima de um assalto suspeito em sua casa em agosto do ano passado quando um velho notebook com seu banco de dados foi roubado. As informações estão a salvo graças a um backup em um HD externo que não foi encontrado.

A pesquisadora se abriga com seus filhos na casa de amigos desde então. Respeitando o latente pensamento de que era necessário sair do país pela sua segurança, física e psicológica, e ao mesmo tempo continuar sua atuação, pleiteou um bolsa na Universidade Livre Bruxelas para qual foi aprovada. O projeto começará no próximo mês.

Brasil de Fato tentou contato com Bombardi e com a antropóloga Débora Diniz, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Edição: Poliana Dallabrida

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